O misterioso sumiço do cesto de pães [5]

Porto Alegre - 7h21'14": Procurar aqui e ali não leva a nada. Nesses momentos é hora de seguir a regra básica. Na sala, um armário de livros posa de altamente improvável. Logo, é vertiginosamente suspeito. Porta aberta, vistoriado de cima até embaixo, uma folha impressa vem às mãos. Um rascunho abandonado do que poderia ser uma autobiografia de Bartleby. Um grito de desabafo que começa assim:
Nada do que eu diga ou faça vai mudar o que ele pensa de mim. Sei disso muito bem e é por isso que o odeio. Mas não só por isso, como vocês logo entenderão. Não pedi para nascer. Foi ele, com o seu desmesurado egoísmo, quem me colocou no mundo, para poder dispor de mim como se eu fosse um joguete em suas mãos. Desconfio que sente inveja de mim. E também suspeito que ele tem um arquivo com meus dados pessoais. Dados falsos, diga-se com clareza. Como, por exemplo, o meu gosto por bolinhos de gengibre. Ele sabe muito bem que eu odeio bolinhos de gengibre, mas insiste em me fazer comê-los todos os dias...
Amassar o papel e jogar no lixo era uma possibilidade, mas preferiu não fazê-lo.
Porto Alegre - 7h23'16": Na TV, um boletim econômico ecoa, dando as notícias da Bolsa de Valores. O Templo onde a avareza encontra a sua anti-matéria: avaros fazendo as vezes de especuladores perdulários, apenas para tentar acumular mais. A mão vai ao bolso da camisa para verificar se algo está lá. A resposta é sim. Um bilhete, onde se lê:
.if. 9.2 * CSTB4 < BELG4 then .buy.
.if. 9.2 * CSTB4 = BELG4 then .stand by.
.if. 9.2 * CSTB4 > BELG4 then .bye bye.
Os pontos de compra e venda da Companhia Siderúrgica Tubarão, tendo por parâmetro a Belgo-Mineira. Aquilo deveria ser para mais tarde. Agora, era hora de Roggenbrot ou Schwarzbrot, mas da cesta, miseravelmente, nada.
[Continua]

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