Pastel com catupiry
Foi o Veríssimo quem fez o elogio do pastel de carne do shopping de Lajeado. Disse, também, que se um shopping podia oferecer um pastel tão bom como um legítimo pastel de bolicho de beira de estrada, estávamos todos perdidos. Foi de comum acordo que decidimos fazer uma parada lá. Entre outras coisas, para rever a Guga e provar o famoso pastel. A Guga é uma tartaruga que cresceu demais para o terceiro aquário que adquirimos. Num ato de pura compaixão, decidimos juntá-la a outras que havia nos tanques em frente àquele shopping. Saímos de Porto Alegre e, hora e meia depois, ela já mergulhava em sua nova piscina. Mas, voltemos ao pastel.
O exemplar era mesmo muito bom. Tanto que o ponto virou parada obrigatória, sempre que passávamos por lá. Na terceira vez, minha esposa resolveu especular se os outros sabores também mereciam respeito: pediu um de frango com catupiry. Mulheres têm uma estranha atração por comidas "com catupiry", que se sabe, é uma marca de requeijão que não tem nada a ver com todos os outros requeijões. Tanto, que virou tipo de queijo. Achou "não tão bom como o de carne, mas bom."
Fiel à fatal atração, na vez seguinte tornou a repetir o pedido: frango com catupiry. Já na primeira mordida, levou dois dedos à boca para resgatar algo, que foi passado pela ponta da língua à ponta dos dedos. Examinou o elipsóide branco, que descansava entre o polegar e o indicador, até exclamar, num misto de repulsa e decepção: "Arroz!". Revirou a língua na boca e capturou mais um exemplar. Abalada pela paixão traída, depositou o envelope de massa no prato e escancarou o monstro. Com um garfo separou o terceiro... outro mais... mais outro... enfim dezenas. Ao contrário das pombas despertadas do Raimundo Correia, eles ainda dormiam aninhados no leito branco. "Moça," - dirigiu-se à atendente, o prato colocado à frente -"tem arroz no meu pastel!" Apreensiva, a garçonete deitou o olhar no silo destelhado. Depois relaxou e, com a serenidade de quem é do 'métier', tranqüilizou-a: "Não é arroz, senhora, é a maizena do catupiry que embolou".
Hoje, só paramos lá para dar "oi" pra Guga. Por algum processo psicológico, passei a associar o pastel de carne a feijões. Foi triste, mas o Veríssimo precisa saber que estamos todos salvos.
[By Roman]
O exemplar era mesmo muito bom. Tanto que o ponto virou parada obrigatória, sempre que passávamos por lá. Na terceira vez, minha esposa resolveu especular se os outros sabores também mereciam respeito: pediu um de frango com catupiry. Mulheres têm uma estranha atração por comidas "com catupiry", que se sabe, é uma marca de requeijão que não tem nada a ver com todos os outros requeijões. Tanto, que virou tipo de queijo. Achou "não tão bom como o de carne, mas bom."
Fiel à fatal atração, na vez seguinte tornou a repetir o pedido: frango com catupiry. Já na primeira mordida, levou dois dedos à boca para resgatar algo, que foi passado pela ponta da língua à ponta dos dedos. Examinou o elipsóide branco, que descansava entre o polegar e o indicador, até exclamar, num misto de repulsa e decepção: "Arroz!". Revirou a língua na boca e capturou mais um exemplar. Abalada pela paixão traída, depositou o envelope de massa no prato e escancarou o monstro. Com um garfo separou o terceiro... outro mais... mais outro... enfim dezenas. Ao contrário das pombas despertadas do Raimundo Correia, eles ainda dormiam aninhados no leito branco. "Moça," - dirigiu-se à atendente, o prato colocado à frente -"tem arroz no meu pastel!" Apreensiva, a garçonete deitou o olhar no silo destelhado. Depois relaxou e, com a serenidade de quem é do 'métier', tranqüilizou-a: "Não é arroz, senhora, é a maizena do catupiry que embolou".
Hoje, só paramos lá para dar "oi" pra Guga. Por algum processo psicológico, passei a associar o pastel de carne a feijões. Foi triste, mas o Veríssimo precisa saber que estamos todos salvos.
[By Roman]

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